sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Apatia

No muro punha-se 'abaixo a ditadura'
E a ditadura punha abaixo o muro.
Era a unha arranhando a pele que, dura, trincava a unha.
Hoje nada se punha. Punho.




Diálogo surdo em ponta de faca

Que pretendes tu que eras você
Que eras tão você e agora és tu
Com essa voz anasalada, com
Essa voz de ranho e ranço, ganso?!
Que pretendes tu com esse vós
Que é a pessoa mais chata do plural
Que eu já conheci em toda minha
Enorme e dinâmica vida conjugal?!

Vá gozar com o palco dos outros
No meu tu não pisa, que se pisa
É como quem pisa esnoba, como
Quem pisa maltrata, pisa e pesa
Pisa em ovos, pisa em povos
Não como quem pisa leveza
Em tablado, templo, nuvem
E te esquivas com nojo da merda
A ótima e útil merda que deixo
Merda, aliás, que no teatro é sorte
No campo é adubo e no cu é tudo.

E te contorces com meu linguajar
Tu que eras você, ocê, cê, se muito
E me chamavas pelo nome, se tanto,
Então me assenhoro se te assenhoras,
Senhora, e te afasto, como exausto
Não com as mãos em que,
Outrora em concha,
Tu vinhas beber com sede imensa,
Mas com a minha indiferença.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Paródia

A FELICIDADE (Tom Jobim e Vinícius de Morais)
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
A FELICIDADE (Faroberto)

Pobreza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é uma bufunfa
Que o vento vai levando pelo ar
A gente deve
Porque a grana é breve
Preciso de dinheiro sem parar


A felicidade do pobre fenece
Até trepando muito em bacanal
A gente se estrepa o ano inteiro
Fim de semana enfadonho
Com a visita de uma tia
Que é uma pirada pistoleira
E vem na hora do rango, brincadeira!

Pobreza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é um pé com gota
Excessos do meu corpo, ai que dor
Fico uma pilha
O bus oscila
Lotado desse povo com fedor

A minha felicidade está viajando
Além de tudo estou sem namorada
Não durmo de noite
Vizinha roncando
Ronca toda a madrugada
O barulho é um terror
Acordo assim fodido todo dia
Cansado, sem dinheiro e sem amor

Pobreza não tem fim

Felicidade sim

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Helena

todas as cordas vibram Helena
a madeira do piano range Helena
cada pelo dos braços do músico agora pai se arrepia Helena
os braços mesmo mal disfarçam a intenção de não mais ser braço
ser colo, ser rede, ser cama, ser tudo menos braço
para Helena.

o piano, agora,
sua ambição é ser escravo, arca, baú, carruagem
dela
tudo menos piano.

no entanto o pai toca o piano, ansiosos.
de seu reino crescente e inexplorável Helena aprova.


domingo, 19 de janeiro de 2014

Excelsitude

Passados natal e ano novo os poetas estão de recesso, por excessos. Exceções feitas, claro, à poesia e ao amor, que são em suma a mesma coisíssima.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Bruna

Arredia
Feito meus olhos recebendo a luz do dia
Quando chega gente, rabugenta
Quando chega a dona, rabo venta
Feliz quando escuta barulhar o saquinho de bolacha
E também se o prato cheio acha
Quando tem rojão, trovão ou sarau desaparece
Mas ao passear até se esquece
Detesta banho, mas adora o carinho do pós-banho
É tão pequena e o coração tamanho
Poucos te entendem, igual é comigo
Esses só sabem apreciar o próprio umbigo
Não importa. Só queremos o amor de poucos.
A gente uiva pra lua, somos loucos!


Fábio Roberto

ps.: quando fiz o poema do Baden ficou faltando o da Bruna. Pronto!

poema para Vó Lourdes

à sombra dos teus olhos
descansa tua beleza
se o sol te enruga a pele
tua sombra é de esperteza

à sombra dos teus relógios
parados, repousam lembranças
se o tempo te ofusca a memória
deita à sombra das crianças

uma só lágrima tua me leva  
todo como a correnteza 
para perto de teu sorriso
onde me deixo, sem tristeza

se no ritmar do teu pulso
confundi meus batimentos
já não sei mais quais são teus
e quais são meus sentimentos.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sons (poema intrauterino)

feito um fute chuto mas em lugar de gol gritam ai
é a mãe que xinga e discute — diz cuticuti o pai
quase escuto a narração mas aqui é muito mute 
ouço o que ouso ou só o que o osso retransmite

às vezes uma substância me acalma ou ludibria
mas tudo é distância se ainda não é teu colo
você dorme um silêncio enorme sem passos
mas o pai ronca uma britadeira furando o solo

som é tudo o que soma e some — e somos
antes de visão ou sapiens, sons = filhos
mas não há sermos (os que, se nascermos, pressupomos)
maior que os de olhos mapaternos brilhos

mapa, sim, já que tão bem nos oriente
e ternos porque, ora! nos é devida a ternura 
de vida, aliás, vão nos inflando... que loucura...
quem diz não ter pedido o nascer... mente...


(para Celi e André)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Adendo

Que tem cu tem medo (que acabe o papel) e treme.

Êxtase

Hoje pensei tanto na minha Morte que a estou beijando nos lábios molhados, carnudos e gelados.
A minha língua invade agressivamente a sua boca e o meu calor prevalece sobre o seu hálito devastador e petrificante. Que delícia sentir a sua salgada saliva misturar-se com a minha.
Que sabor austero e enfeitiçador tem a Morte.
Ela almeja dominar-me com sua volúpia, sugando-me pra dentro dela com o desejo de me aprisionar.
E eu permito que o faça porque está tão agradável e acolhedor ela bebendo toda a minha vitalidade, a completa energia da minha vida ora profícua ora inválida.

Só que eu preciso e estou muito mais sedento de veneno do que a Morte.
Eu a abraço forte e a faço sufocar.
Ela e só ela pode compartilhar tamanho prazer ausente de ar, sobrevivendo através deste ósculo doentio e insano que nos leva além de qualquer êxtase já experimentado por vivo ou morto.

Então afasto levemente os meus lábios dos lábios da Morte, agora molhados, carnudos e ferventes.
Permanecemos assim por muito tempo, com os rostos colados, absorvendo a brisa aquentada que exalamos.
Não sei quanto tempo, talvez uma eternidade.
Ou eu estou morto ou a Morte está viva!

Não sei se quero descobrir.



Fábio Roberto
(2008 ou hoje)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Amanhoje

Hoje é um monge
longe
que medita que me dita 
o mantra mantra mão
trama trama outra manha
manha manhã
amanhã a mañana
tr tr tr ch ch
ch... chama ch... chama
ch... ama... ana ch...ama x...ana ama.
Cama.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

domingo, 29 de dezembro de 2013

Em Um Reveillon


Não vejo a hora de chegar o reveillon,
beijar de novo esses teus lábios de batom.
Só nessa noite eu, você e Moet & Chandon,
entre fogos e artifícios, oh ma passion...

Ah, como eu queria ter a idade
certa. E me perder na tua cidade
luz, mas já se apaga a eternidade
dos olhos me restando só saudade

e a esperança de que acabe logo o ano.
Nossa promessa feita no cair dos panos,
navegue as ondas violentas do oceano,
pra ser vivida inteiramente sem mais planos...


Fábio Roberto

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Ano Novo

Olá 2014, tudo bem? Tá nervoso, né? Eu já passei por isso. Toda essa idade, experiência, vivência e começar tudo de novo. Dou uma dica. Primeiro tente aprender com quem é menor do que você. Seja humilde, não importa quem você é, foi, ou será. Observe a sabedoria das crianças, escute os mais velhos mesmo quando discordar deles, aja como se fosse um cão. Mas depois se espelhe nos Grandes Mestres.  E faça isso para sempre. Certamente você encurtará essa transição. Tantos te esperam de braços abertos. Muitos depositam toda esperança em você. Venha com força, mas cauteloso. Seja ousado, mas tenha bom senso. Qualifique seus 365 dias pela pauta do amor, honestidade, honra e coragem.

Quem sou eu para falar isso? Ah, meu amigo 2014, eu também sou um aprendiz passeando pelo espaço e pelo tempo e desejo a sua melhor sorte. Melhor sorte que a minha. A mim resta a oração desesperada de quem nunca perderá a fé, aconteça o que acontecer. Portanto concentre-se em tornar a sua existência de um ano, um mero e simples ano, no ano mais importante de todos os anos.

Que os 2013 anos anteriores te invejem e que o futuro te imite.


Fábio Roberto