sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

DEFINIÇÕES


Sede: sensação provocada pela necessidade de beber algo alcoólico e excitante como cervejas, whiskies, vinhos e a mulher amada.

Fome: sentimento de desejo e excitação pela mulher amada, superior ao tesão.

Vício: sentimento de necessidade da mulher amada, superior à saudade.

Tristeza: sentimento dolorido provocado pelo vício não consumado, a fome não satisfeita e a sede não saciada pela mulher amada.

Alegria: sensação agradável que se tem após o ato de ter a sede, a fome e o vício momentaneamente resolvidos com a mulher amada.

Ciúme: quando se pensa que a mulher amada está satisfazendo a sede, a fome e o vício de outrem.

Dor de Corno: sensação desagradável e específica de dor provocada por protuberâncias pontudas denominadas chifres, sentida quando efetivamente a mulher amada sacia a sede, fome e vício de outrem.

Esperteza: qualidade do homem que tem várias mulheres amadas e sempre uma pronta para saciar sua sede, fome e vício.

Inteligência: qualidade do homem que tem várias mulheres amadas, sempre uma pronta para saciar sua sede, fome e vício e, além disso, as deixa completamente apaixonadas.

Safadeza: ato de retribuir o prazer proporcionado pela mulher amada, levando-a ao merecido êxtase de satisfação e pleno prazer.

Sacanagem: é não fazer safadeza com a mulher amada, porque fez antes com outras mulheres amadas no mesmo dia.


Faroberto

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

MERCADO

E por que você me olha em pleno mercado
com esses olhos verdes de carência?
Não te assustou a minha péssima aparência,
nem o meu olhar desenganado?

Nós dois no caixa pagando a conta da vida,
para a qual parecemos não mais ter crédito.
Este é o nosso legado: um passado inédito
e o futuro num labirinto sem saída.

Conversamos pelas palavras de um sorriso.
O teu marido te espera no carro,
não é tua hora de perder o juízo.

Sabemos bem que caminhar é preciso
e nos despedimos sem abraço ou aviso.
A minha alma doente no chão escarro.


Fábio Roberto

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

COMPOSITOR E POETA ABRE VAGA PARA MUSA

SALÁRIO: poesias e canções.
BENEFÍCIOS: amizade; aventura; emoções intensas, alegres ou não; mergulho nos sentimentos contidos na profundeza da alma; infindáveis palhaçadas, debates filosóficos e papos artísticos; participação nos eventos da Casa do Sarau; carteirinha da Turma Braba; book mensal com as obras inspiradas no período.
BENEFÍCIO ADICIONAL: acervo com mais de 400 canções disponíveis.
HORÁRIO: a combinar
EXIGÊNCIAS: ser mulher inspiradora em todos os sentidos.
DIFERENCIAIS: serão considerados por olhos, coração e mente de poeta.
DURAÇÃO DO CONTRATO: enquanto houver encantamento.
RISCOS: paixão; sexo; descobrir sua loucura; ser criadora de arte; sonhar muito e não se adaptar mais à realidade; querer fugir do mundo; ter a melancolia como parceira até no momento mais feliz; ter a alegria como companheira até em um funeral; ter a vida escrita e sonorizada; não poder esquecer jamais o que passou de bom e ruim; beber a vida e desejar a morte.
INTERESSADAS ENVIEM MENSAGEM INBOX

FAROBERTO

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

ASTERÓIDE

Eu não poupo nada. Seja desespero, grana, cerveja ou raiva. Palavras, dúvidas, músicas, certezas, pensamentos psicopatas ou filosóficos muito menos entronizo em mim. Não me guardo esperança ou desistência. Vomito tudo isso do meu interior. Defeco fé e descrença numa diarréia inacabável. Não consigo juntar pontos e simpatias. Nem acumulo sorrisos ou amontôo melancolias. As minhas tristezas deixo que jorrem em milhares de uivos pra lua. Memórias não me existem, pois as apago cantando nos lugares mais insólitos. Histórias que vivo morrem rapidamente porque não são economizadas. Os meus sonhos praticamente saem na urina quando rego irresponsavelmente jardins, muros e postes. Orações e blasfêmias as executo até me exaurirem. O tempo escasso eu o gasto inadvertidamente. Deixo sangrar cada gota de sangue das feridas abertas na alma e no corpo.

Não poupo coisa alguma ou qualquer pessoa porque posso não acordar amanhã. Fumo maços de cigarros e injeto drogas compulsivamente. Ando kilometros mesmo que esteja quase me arrastando em cansaço. Acabo com a última garrafa de whisky do mundo porque não tem importância ter mais disso no próximo minuto. Outra chance, outro pênalti ou mais uma vez de qualquer coisa não quero porque jogo tudo fora.  Mais uma mulher não desejo porque tenho que me exaurir de todas agora. Quem sabe um asteróide se colida com este planeta justamente no dia seguinte a este e então este será o último dia, e eu não fiz tudo o que podia, queria, desejava. Por isso sou assim intenso, inconseqüente, esquisito e maluco queimando todos os meus talentos desta forma despojada. Paixões vêm, vão, vêm, vão e nunca permanecem. Elas me abandonam no suor. Não sou começo, só o que sempre acaba. Não sou rio, mas um vazamento de cano furado sem conserto. Sou a poluição que vai contaminando o céu até desperdiçar todo o ar. Não me poupo para o amanhã porque ele nunca irá chegar.


Fábio Roberto

domingo, 15 de janeiro de 2017

TEATRO (Musicado em 1991)

Passando pela vida,
pela curva de qualquer esquina perdida,
o horizonte não se enquadra nos olhos.

Tudo é nuvem espessa, longo caminho.
E todo dia a cortina se levanta.
A história se faz linda, violenta.
O destino improvisa o momento,
deslocado no tempo e no espaço sombrio.
Dramas e comédias de um roteiro
que ninguém escreveu.

Passando por aí,
pela curva de qualquer esquina perdida,
a vida não se enquadra nos olhos
de quem a vê.




Fábio Roberto

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ESCURECER

Corro atrás do tempo,
Não alcanço o amanhecer.
A luz que me chega
Só me cega e faz sofrer.

Fecho os olhos a essa cor brilhante
E não sinto o seu ardor queimar.
Fecho os olhos a essa cor errante
E os abro em melhor lugar.

Meu caminho sempre foi voar.

O sol
Inconsequente
Se pôs.
Indiferente ao frio
E à dor
Nascente.

Meu coração pressente o escurecer.



Fábio Roberto
Letra para a música de Titi Trujillo

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

GRAND FINALE

Uma canção não se desfaz
se já tocou e alguém sentiu.
Mesmo se o dono da canção,
um dia quiser esse som renegar.

Cantar é dom da vida.
As frases, melodias
que a cada sol combinam suas cores.
Destinos, Housadias
vencendo os pudores.
Passagem carimbada só de ida.

Uma canção não se desfaz
se já tocou e alguém sentiu.
Mesmo se o dono da canção,
um dia quiser esse som renegar.

Viver é dom de quem não sabe,
não desejou, talvez nem acredite.
Dançam livremente as notas pelo ar.
Não haverá amor que não acabe.
Mesmo paixão louca de Afrodite,
morre só e longe do seu par.





Uma canção não se desfaz
se já tocou e alguém sentiu.
Mesmo se o dono da canção,
um dia quiser esse som renegar.

Compor é próximo dos deuses:
o artista determina grand finale.
Rasgando a partitura em improviso,
regendo o som da morte com berceuses.
E antes que a paixão pra sempre cale,
a beija altissonante com um sorriso.

Uma canção não se desfaz
se já tocou e alguém sentiu.
Mesmo se o dono da canção,

um dia quiser esse som renegar.

(Canção 19 da parceria Jairo Araujo e Fábio Roberto)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

MEDITAÇÕES


Hoje estarei em estado contemplativo e introspectivo, meditando profundamente sobre a existência ou não da vida, do amor e da poesia, e a relação intrínseca entre os fragmentos sensíveis da memória relativa junto ao tempo.

Hoje estarei em estado contemplativo e introspectivo, meditando profundamente sobre a existência ou não da morte, da paixão e da arte, e a relação intrínseca entre saber, querer e fazer com a dicotomia existente no despojamento ou desejo da alma sob a perspectiva da psique humana.

Hoje estarei em estado contemplativo e introspectivo, meditando profundamente sobre a consciência ou abstração do tempo na história universal humana, e a relação intrínseca entre a inércia do pensamento e a ação instintiva do espírito no conceito de existência, face ao conhecimento, sabedoria e objetividade.

Hoje estarei em estado contemplativo e introspectivo, meditando profundamente se a prática da virtude realmente fundamentaliza a existência do bem ou seria essa assertiva meramente uma visão teocentrista calcada em conceitos empíricos, e a relação intrínseca entre o movimento dialético do pensamento e a contraposição refletida por dogmas e preconceitos singulares ou universais.

Esta noite estarei em estado contemplativo e introspectivo, meditando profundamente se é o homem resultado do pensamento relativizado no tempo e no espaço de um mundo quântico, onde a observação do sujeito epistemológico e só essa observação pode desdobrar sujeito e objeto para o alcance do conhecimento, e a relação intrínseca entre a alma, pensamento, ondas, partículas e comportamento dos átomos face às várias interpretações da existência.

Esta noite estarei em estado contemplativo, introspectivo e em jejum total, para a prática dos exercícios de transmutação, pranayama, árvore dos sefirot, levitação e viagem astral, preparação para a série de profundas meditações a serem realizadas após a próxima 

Faroberto

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

ENSOLARADO

O dia amanhece o seu estorvo,
sob as asas cansadas de um corvo
de olhar parado, solitário e lúgubre.
Fome de cadáver insalubre.

O dia é ensolarado e nem queria.
Cinzento e gelado ele seria,
pudesse conceber a sua escolha.
O vento o levaria como folha

caída, apodrecida pelo tempo.
Um resto de funesto sentimento.
Espasmo em uma face sem sorriso.

Mente que perdeu qualquer juízo.
Mantra que repete um só lamento.
Choro que ensurdece o paraíso.


Fábio Roberto

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

DEVANEIO

Aí perco o sono, tudo é silêncio, principalmente dentro de mim onde nada estou acontecendo. Porque meu amor não está aqui dormindo, cansada, exausta de paixão. Fico um vazio, inerte palidez de alma, triste porque não me sinto mais doer nem saudade. Procuro um som na paisagem da janela, mas só há murmúrios difusos no escuro da madrugada. Penso ouvir tiros, gemidos de alguém fazendo sexo, gritos de truco, filme passando em televisão, um canto de melodia melancólica, gato miando, cão uivando sem lua no céu, não há céu, não há mundo, nem olhos pra esse nada enxergar. Só queria dormir a mente cansada de existir esta vida, quando lembro que eu já disse que "dormir é a ressaca da vida e o aperitivo da morte"... tudo não passa de ilusão. tudo não passa. tudo não. tudo. tu. Ilusão. Fábio Roberto

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CARTA DE DESPEDIDA

Decidi virar um ermitão. Amanhã irei embora para longe, sem passado. Não tenho grana para deixar. Rasguei todos os meus documentos, cartões de todos os tipos. O violão também fica. Que o pegue quem quiser. As minhas pastas de músicas, os cadernos de poesias, contos e palavras soltas ficarão na gaveta, junto com cds, fotos, filmes e todas as lembranças de quem não sou mais. Os computadores e seus arquivos não me sobram importância. Os bancos que busquem os carros, pois para onde vou só chego com meus pés. Estou muito aliviado em me transformar finalmente num ser arredio e solitário. Prefiro estar à margem desta sociedade cansativa e rotineira. Que bom deixar o cabelo crescer até os ombros, nunca mais colocar um sapato. Não precisar falar bom dia, boa noite, boa tarde, como vai, e aí, tudo bem, quanto tempo, te amo, te quebro, que raiva, que alegria, que merda, que delicia, me liga, quanto custa, quanto falta, que horas são... Que maravilhoso será o silêncio da minha mente ausente de sonhos, desejos, vontades, frustrações, arrependimentos, orgulhos, realizações. Mais nenhuma oração será preciso, darei descanso eterno a Deus. Uma existência sem celular, tv, rádio, notícias, emails, pessoas, bondade ou maldade. A minha boca não sentirá mais os sabores amargos das bebidas que fizeram tão mais doce a realidade que terminou. Deixarei livres todas as pessoas que amo, porque amar de verdade talvez seja assim. Amar e partir. Amanhã, quando subirem as cortinas dos meus olhos, seguirei esse destino derradeiro. Será impossível me seguir porque estarei escalando uma montanha que só eu vejo. E lá na minha caverna, bem no topo, admirando o horizonte do mundo a luz de uma fogueira aconchegante e sentindo o abraço da escura noite, aquela maldita e única lágrima secará em meu rosto. Vou fechar os olhos respirando o cheiro de mato trazido pelo vento e sorrir. Vou voltar a sorrir por estar novamente tão perto e tão longe da vida.


 Fábio Roberto

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

TATUAGEM

Colo no teu corpo feito poesia no papel
Feito sol no azul do céu
Sorriso que não sai da boca
Após uma noite intensa, transa louca
de paixão

Colo no teu corpo feito a lua que invade a noite,
Forte e delicadamente feito um açoite
Pra te dar prazer e nunca dor
Um passeio muito, muito além do amor
e do tesão

Colo no teu corpo e te aqueço
É tão bom que em você eu me esqueço
Então eu fico no aconchego do teu lar
Como se ele fosse a viagem do meu olhar
na imensidão...



Fábio Roberto

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

SAL

Mas quem é esse que tanto falo em romance?
Esse não sou eu, então que eu pare antes que me canse.
Eu sou um poeta maldito que as palavras no papel vomita,
feito comida deteriorada e fria de suja marmita.


A minha poesia é para ser lambida pelos cães sem donos,
aqueles que bebem as águas apodrecidas nas sarjetas,
uivando para receber réstias de luar, como gorjetas
clamadas pelos miseráveis que habitaram tronos.


O que escrevo é uma ferida purulenta que nunca cicatriza.
É um sentimento que invade. Não se doma. Não se exorciza.
Corrói por ser lava que desce fumegante a encosta,
queimando a alma numa dor tão forte e poderosa que se gosta.


Estas são as declarações de amor deste visionário insano.
O sabor da minha boca pode ser amargo, estranho, obsceno.
Nunca será doce, tampouco suave. Eu não existo ameno.
Sou o tempero mergulhado sob as ondas do oceano.



Fábio Roberto

quarta-feira, 20 de julho de 2016

poema noturno





o anoitecer nas casas —
as pálpebras feito lábios
se beijam lentamente no escuro.
os lábios feito asas
no voo das pronúncias
semi-inaudíveis.


sexta-feira, 8 de julho de 2016

FAROBERTO E O BUSÃO 4727-10

Tenho utilizado o péssimo transporte público da cidade, vulgo Busão, um serviço precário como tudo o que oferecem prefeitura ou governo de SP apesar dos brutais impostos, taxas e cobranças com que afligem a população. Eventualmente utilizo o Busão Praça da Árvore que passa naquela praça que tem de tudo menos árvore. Mesmo com aplicativos para saber onde está o ônibus, sempre que me aproximo da esquina do ponto vejo o veículo indo embora com seu emburrado motorista careca. Não falha.  Dez ou quinze passos antes que eu chegue à esquina ele passa, seja qual a hora que eu for lá. O desgraçado do calvo motorista deve ter um GPS especial para localizar usuários se aproximando, principalmente os de nome Fábio Roberto. Só poder ser isso. E o cara ainda parte bem devagar, fingindo parar para estimular uma corrida falsa de esperança ao incauto, acelerando avidamente ao menor gesto que se faça e soltando aquela fumaçinha pelo escapamento do bus que deve ser dos gases do seu podre intestino. Muito bem. Isso foi até hoje, quando resolvi ir ao ponto disfarçando ansiedade, desejo, pressa ou necessidade, aconselhado por Krishnamurti. Assobiando “é maravilhoso e impressionante que a sede nunca passa...” de forma despreocupada, como quem nem vai pra lugar algum, segui apenas apreciando a paisagem, os passarinhos cantando nos jardins, os cães no passeio matinal e cumprimentando os vizinhos que varriam suas calçadas. Faltando quinze passos para a fatídica esquina, olhei para trás, coloquei a mão no bolso procurando algo, mera dissimulação para o energúmeno motorista descabelado e seu GPS para Fábios Robertos pensarem que eu ia voltar. Mantendo o andar ritmado e calmo, cheguei à esquina. De soslaio perscrutei o ambiente e vi. Lá estava ele, o Busão 4727-10, e seu calvo motorista parados no ponto, com uma fila de passageiros paulatinamente subindo ao veículo. O pseudo-piloto profissional me viu e entrou em desespero ao perceber-me aumentando os passos para superar os dez metros da esquina ao ponto.  Ele apertou num frêmito o acelerador tentando fazer os passageiros entrarem mais rápido no Busão. Alguns até tropeçaram. Mas não teve jeito. Placidamente o alcancei já partindo, pulei e mesmo desequilibrado entrei sorrindo ironicamente, dei um sonoro e geral bom dia que foi respondido pelas pessoas próximas, menos pelo enrubescido de raiva e escalvado condutor de araque. Então fui até o cobrador assobiando alegremente “é maravilhoso e impressionante...”

Aí começou a segunda parte do embate. Aquilo que o projeto de chofer pensou que seria sua vingança. Como correu aquele Busão numa espécie de Fórmula 1 particular, rangendo cada pedaço de metal, soltando parafusos, parecendo que iria se desintegrar. Nenhum buraco segurava o ímpeto do piloto da calvície. Não havia valeta, lombada ou obstáculo que fizesse arrefecer a sua sanha. As curvas eram feitas praticamente em duas rodas. Pessoas jogadas pra lá e pra cá feito sardinhas em lata, gritaram revoltadas. Não adiantou nada. O segurador de volante e sofredor de alopecia, de olhos esbugalhados, nem mais ouvia a campainha solicitando parada. Ele só tinha o intuito insano de me derrubar e machucar. Só que eu não entro em duelo despreparado. Já havia afivelado meu cinto de segurança, daqueles usados para lavar janelas em prédios de cinqüenta andares, no cano do carro e me mantinha ali firme e pregado como macaquinho nas costas da macaca-mãe. Objetos, velhinhos e crianças voavam no interior do bólido a exemplo do que acontece num avião despressurizado. Buzinas ensandecidas eram acionadas pelos automóveis nas ruas. Acenos de marronzinhos, apitos, viaturas do CET, ambulâncias, bombeiros e helicópteros dos programas sensacionalistas de TV perseguiram o 4727-10 desvairado pelo bairro do Jabaquara, até que as sirenes e barreiras da polícia fizeram o aparvalhado timoneiro de testa alongada frear o desgastado coletivo.
Soltei o cinto de segurança, fui para a porta de saída do carro ao lado do navegador desprovido de proteção capilar na moleira, agora com um sarcástico e incontrolável gargalhar de vitória. Parei no pé da escada. Dei um “duplo twist carpado com pirueta”, digno de olimpíada e cheguei ao solo sem movimentar o corpo um milímetro. De braços abertos recebi os aplausos de todos os passageiros, policiais, marronzinhos, bombeiros, paramédicos e curiosos.

Dotado de crânio vazio por dentro e por fora, aquele escalpelado psicopata Jóquei de Busão não imaginava quem tinha provocado.


Faroberto